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O Brasil é um país-continente, uma nação múltipla e unitária, complexa e dinâmica. É a quinta maior população mundial (com cerca de 207 milhões de habitantes), o segundo país mais populoso do continente americano e de todo o hemisfério ocidental, superado apenas pelos Estados Unidos, e também a quinta maior superfície em extensão do planeta (8,514 milhões de km2 ).

É uma das dez maiores economias do mundo (seu PIB alcançou R$ 6,6 trilhões, em 2017) e é dono de um parque produtivo diversificado, de um sistema financeiro e bancário dos mais modernos (embora concentrado) e, sobretudo, de vastos recursos naturais (maior produtor mundial de minério de ferro, soja, cana-de-açúcar, suco de laranja, café, mandioca, etanol e frutas tropicais e o segundo maior produtor de feijão e carne de frango), de potencialidades imensas e com uma boa interligação com a economia mundial. Neste particular, nossas exportações, compostas sobretudo de commodities (produtos de origem vegetal ou natural enviados em seu estado natural, sem serem industrializados) atingiram a marca dos US$ 217,74 bilhões, enquanto as importações subiram para US$ 150,74 bilhões, com um saldo positivo da balança comercial (diferença entre exportações e importações) em US$ 67 bilhões.

Ao mesmo tempo, o Brasil situa-se na ridícula 50ª posição mundial em termos de renda per capita, (R$ 13.670 ou US$ 10.328) e faz 25 anos que é campeão mundial absoluto em concentração de renda e de riqueza (ativos financeiros, fábricas, terras, imóveis em geral etc.), mesmo quando comparado com nações pobres da África. Para se ter uma ideia, apenas 1% dos brasileiros detém cerca de 53% do estoque de bens do país e a renda dos 10% mais ricos é 28 vezes a obtida pelos 40% mais pobres (na Argentina é de dez vezes, em Portugal de oito, nos EUA de 5,5 e no Japão de quatro vezes). Destaque-se que os brasileiros pobres, cuja renda mensal é insuficiente para o atendimento do conjunto de suas necessidades básicas, constituem 1/4 da população (segundo o IBGE, em 2017, 25,4% da nossa população vivia na linha de pobreza). E o programa Bolsa Família, como já era esperado, pelo seu caráter assistencialista e eleitoreiro, não tem reduzido a gigantesca desigualdade existente em nossa sociedade.

Segundo o Índice de Gini, apenas Namíbia, África do Sul, Bolívia e Haiti apresentam padrão de concentração de renda pior do que o brasileiro. Mas, se forem comparadas apenas as nações de alto desenvolvimento humano, o país apresenta a maior desigualdade medida por este índice. Por sua vez, é campeão mundial em taxa de juros praticada (para depósitos e empréstimos). Há muitos déficits sociais no Brasil. Apesar de ser a sétima economia do mundo, o Brasil ocupa o 79º lugar no que diz respeito ao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), índice que utiliza indicadores de renda, saúde e educação, e temos a 112ª posição (nosso índice é 0,581) em um conjunto de 200 países, do mais ao menos desenvolvido, no quesito saneamento básico, abaixo de países cuja renda média é inferior ao da população brasileira – entre eles o Equador (0,707), o Chile (0,686) e a Argentina (0,667). No concreto, apenas 82,4% da população tem acesso à água potável, sendo que 17,6%, isto é, mais de 30 milhões de pessoas, não. Quanto à coleta de esgotos, ela chega a 48,1% da população, significando que mais de 100 milhões de brasileiros ainda não possuem este serviço básico.

Segundo advertem os organizadores do estudo, “a situação do saneamento tem reflexos imediatos nos indicadores de saúde”. Eles citam que, em 2011, a taxa de mortalidade infantil no Brasil chegou a 12,9 mortes por 1.000 nascidos vivos, superando as registradas em Cuba (4,3%), no Chile (7,8%) e na Costa Rica (8,6%). Outro efeito direto refere-se à expectativa de vida da população (75,8 anos) em 2017, que ficou abaixo da média apurada na América Latina (na Argentina e no Chile).

No Brasil, cerca de quatro milhões de pessoas moram em favelas. Em maio de 2017, o déficit habitacional brasileiro atingiu a marca de 7,7 milhões de domicílios, o terceiro pior índice da história, segundo um estudo realizado pela Fundação Getulio Vargas.

De acordo com o Censo Escolar da Educação Básica, do Ministério da Educação, o Brasil conta com 184,1 mil escolas – sendo que a maior parte (112,9 mil, o que equivale a dois terços) é de responsabilidade municipal. Do total de colégios, 21,7% são particulares. 116 mil instituições oferecem ensino fundamental (tem 48,6 milhões de matriculados, e a taxa de alunos em período integral é de 13,9%). O ensino médio é oferecido em 28,5 mil instituições de ensino que atendem 7,9 milhões de matriculados, dos quais 7,9% têm atividades em tempo integral. Vem caindo o número de matriculados no ensino médio e vem aumentando o índice de jovens inativos, ou seja, aqueles que não trabalham nem estudam. Outro grande problema é a questão de que muitos alunos estão na escola, mas na idade escolar errada. Isto ocorre tanto pela reprovação quanto pela alta taxa de abandono escolar, principalmente após o ensino fundamental. Temos 13,2 milhões de analfabetos, com 15 anos ou mais de idade; 54,5 milhões, com mais de 25 anos, não terminaram o Ensino Fundamental e 70 milhões o Ensino Médio. Grave também é que nosso ensino médio possui um déficit de 250 mil professores, especialmente das disciplinas de química, física, matemática e biologia, áreas cruciais para transitar para a chamada “sociedade do conhecimento”.

Nos últimos 20 anos, também passamos de 1,66 milhão para 7,04 milhões de matrículas nos cursos superiores, mas quase 40% de nossos universitários sabem ler e escrever medíocremente e poucos sabem a matemática necessária para um bom curso nas áreas de ciências ou engenharias. Nossa situação é tal que ocupamos o 50º lugar, entre 57 nações, no Programa Internacional de Avaliação de Aluno (Pisa), que avalia o desempenho de estudantes em matemática, ciências e leitura.

A divulgação do resultado saiu em fins de 2016 – estamos entre os dez últimos do ranking em ciências (63º) e matemática (65º); em leitura, a modesta 59ª posição. No total, 841 escolas brasileiras e 23.141 dos nossos alunos foram avaliados. Os dados apontam que o Brasil está muito aquém das grandes potências educacionais, como Cingapura, China e Finlândia. No tocante à nossa média de escolaridade, é simplesmente vergonhosa – o brasileiro não vai além de 6,7 anos de frequência à escola, índice três vezes inferior ao da Argentina.

Trata-se também de um país que ainda maltrata suas crianças, estando o Brasil entre os países com maiores índices de exploração do trabalho infantil. Calcula-se que cerca de 4 milhões de crianças, entre 5 e 16 anos, tenham atividades na área rural, nos lixões – como catadores de papel – nos serviços de carvoarias e nas olarias e até mesmo na exploração sexual, especialmente nas regiões de maior fluxo de turismo. Dados colhidos pelo IBGE dão conta que 20% dos brasileirinhos já trabalham antes dos 10 anos de idade e 65,7%, antes dos 15 anos.

Um contingente de 61,3 milhões de brasileiros de 14 anos ou mais não trabalha nem procura ocupação – e, portanto, não entra nas estatísticas do desemprego. Trata-se de 38,5% da população considerada em idade de trabalhar pelo IBGE, o que equivale à soma do total de habitantes dos estados de São Paulo e do Rio. Mesmo tirando da conta os menores de 18 e os maiores de 60 anos, são 27,7 milhões de pessoas fora da força de trabalho, seja porque desistiram de procurar emprego, seja porque nem tentaram, seja porque são amparados por benefícios sociais. O grau de instrução da maioria dos que não trabalham nem procuram emprego, previsivelmente, é baixo: 55,4% não chegaram a concluir o ensino fundamental. Porém, quase um quarto do total conta com ensino médio completo ou mais escolaridade. Considerando toda a população em idade de trabalhar, de 159,1 milhões, as proporções dos grupos menos e mais escolarizados são semelhantes, na casa dos 40%.

O Brasil possui cerca de 15,7 milhões de pessoas trabalhando na zona rural, o que representa 17% de toda a mão de obra ocupada no país. Destes, aproximadamente 4 milhões são assalariados rurais, dos quais 60% – cerca de 2,4 milhões – atuam na informalidade e com salários menores que os formais, segundo pesquisa do IBGE realizada em 2012. Trata-se de um problema grave, exemplo concreto de abandono e exclusão, que precisa ser enfrentado, pois muitos deles ficam sem os direitos trabalhistas e previdenciários, como aposentadoria, auxílio-doença, pensão por morte, férias, descanso semanal remunerado, 13º salário, hora extra, licença-maternidade e paternidade, aviso prévio, Fundo de Garantia por Tempo de Serviço e seguro-desemprego. Além da perda de garantias trabalhistas, os baixos salários são preocupantes. Segundo pesquisa do IBGE, 78,5% dos trabalhadores assalariados rurais informais têm rendimento médio mensal de até um salário mínimo, sendo que quase metade desse total, 33,9%, recebe menos de um salário. A informalidade também aumenta o risco de o trabalhador ser exposto a situações de trabalho escravo.

A inserção da mulher no mercado de trabalho se diferencia da do homem. Mesmo representando 52,3% da população em idade ativa, as mulheres são apenas 43,3% da população economicamente ativa. Este maior número de inativas está relacionado a donas de casa, mulheres grávidas ou mães solteiras que optam por não estar no mercado de trabalho. A menor taxa de participação, somada à maior taxa de desemprego feminino, leva a uma taxa de ocupação menor das mulheres. Entretanto, entre os ocupados, a taxa de assalariamento (aqueles cuja remuneração é na forma de salários) das mulheres é maior do que a dos homens. A taxa de formalização (com carteira assinada) é mais baixa para as mulheres (71,1%) do que para os homens (76,8%), indicando uma inserção mais precária delas. Ademais, as mulheres estão mais inseridas nas ocupações que apresentam remuneração menor, como no trabalho doméstico, especialmente o sem carteira. Por fim, os rendimentos médios são menores para as mulheres do que para os homens em todas as ocupações, sendo mais próximos no trabalho doméstico com carteira (média feminina equivale a 87,8% da média masculina) e mais distantes no setor público com carteira (média feminina equivale a 67,4% da média masculina). Esta diferença se dá a despeito do maior nível de instrução das mulheres ocupadas. De fato, a porcentagem de mulheres com instrução, a partir do ensino médio completo ou equivalente, é maior do que dos homens (60,5% e 46,0% respectivamente).

Segundo o Mapa da Violência, a taxa de homicídios no país é a maior desde 1980. O Brasil teve 59.121 pessoas assassinadas em 2017 (um aumento de 2,7% em relação ao ano anterior), uma a cada 9 minutos, em média. A taxa de mortes a cada 100 mil habitantes subiu e está em 28,5. Os homens jovens (entre 15 e 29 anos) continuam sendo as principais vítimas: mais de 92% dos homicídios acometem essa parcela da população. A cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. De acordo com informações do Atlas, os negros possuem chances 23,5% maiores de serem assassinados em relação a brasileiros de outras raças, já descontado o efeito da idade, escolaridade, do sexo, estado civil e bairro de residência.

Tal número de assassinatos e o índice de mortes por 100 mil habitantes rompe o teto fixado pela Organização Mundial da Saúde para indicar situação de violência epidêmica: 10 homicídios por 100 mil pessoas. Nossas taxas são de 50 a 100 vezes maiores do que a de países como o Japão. Com taxa de homicídios crescente, é compreensível a apreensão dos cidadãos. Sobretudo porque a violência não se restringe à perda de vidas. Furtos, roubos, estupros, sequestros relâmpagos se tornaram rotina no dia a dia do cidadão. Grades, muros altos, prisão domiciliar não afastam nem inibem criminosos.

Com 1,09 milhão de homicídios entre 1980 e 2010, o Brasil tem uma média anual de mortes violentas superior à de diversos conflitos armados internacionais, apontam cálculos do “Mapa da Violência 2012”, produzido pelo Instituto Sangari.

São estarrecedores os dados de uma pesquisa do Ibope, divulgada em setembro de 2014, os quais revelam que 42% dos brasileiros não praticam atividades culturais com frequência. Ela foi aplicada em 74 municípios, com 1.620 entrevistados entre 16 e 75 anos, de outubro a novembro de 2013. As respostas deram origem à divisão dos entrevistados em quatro perfis diferentes: o não consumidor (42% da população), o consumidor de cinema (33%), o consumidor de festas (15%) e o praticante cultural (10%). Em 2007, o IBGE havia divulgado dados ainda mais alarmantes: os 10% de brasileiros mais ricos são responsáveis por cerca de 40% de todo o consumo cultural no país, cuja concentração (41% desse consumo) se dá nas regiões metropolitanas. Apenas 7,3% dos municípios possuem cinemas (menos de 10% dos brasileiros vão pelo menos uma vez por ano ao cinema, e os que frequentam as salas com mais regularidade não chegam a totalizar 5%, sendo que cerca de 87% dos brasileiros nunca foram a um cinema). 90% dos municípios não têm equipamentos culturais, e 18,8% das cidades têm teatros ou casas de espetáculo. Cerca de 92% da população nunca entrou em um museu. Na área de literatura, as tiragens de livros são de apenas cinco mil exemplares, para um país de 200 milhões de habitantes, e 73% dos livros estão concentrados em 16% da população. O brasileiro lê, em média, 4,7 livros por ano. No entanto, quando contabilizada apenas a leitura feita por pessoas que não estão mais na escola, a conta fica em 1,3 livro por ano. Já a média de livros comprados pelos brasileiros fica em 1,1 livro por ano. Tão grave quanto esses dados é que apenas 0,2% do gasto público do país tem sido aplicado no setor cultural. Ou seja, de cada R$ 1 milhão de recursos públicos gastos no país, somente R$ 2 mil são investidos na área cultural.